08 de Fevereiro de 2010

ConvidadosPortugal precisa da força anímica de alguém que, de facto, se empenhe no zelo pela qualidade de vida dos Portugueses. Pela qualidade de vida, pela qualidade da Democracia e pela qualidade da Liberdade. Ao contrário do que se difunde e se propagandeia, o problema português não reside em questiúnculas políticas e não se resolve com a mudança gratuita dos actores governativos. O problema do país é, indiscutivelmente, a economia. A economia que hoje se reconhece completamente destroçada e cujos esforços de reconstrução requerem à política, a criação de condições de estabilidade.

 

Para isso, Portugal precisa de quem possa falar com uma autoridade ética, devidamente reconhecida em termos sociais e caucionada institucionalmente, sobre os caminhos a ponderar e a desenvolver no contexto do investimento conjunto que é necessário levar a cabo, para que o país encontre o ponto de sustentabilidade económico-financeira, a partir do qual se possa consolidar a sociedade moderna que se pretende, de há muito, construir. Alguém com um perfil ético capaz de garantir o olhar distanciado, sério e objectivo que, assente numa forte experiência da vida política, possa revelar o entendimento profundo das causas sócio-culturais, subjacentes aos mecanismos que resistem à mudança qualitativa dos procedimentos e dos métodos de intervenção sócio-política que é urgente assumir para que se materializem soluções que, a não serem apontadas e concretizadas nos deixarão sucumbir, como país, ao atavismo estrutural que se denota nas práticas colectivas tradicionais que a tecnologia não resolve e que pode resultar no pior cenário que as tendências económicas permitem prever.

 

A Presidência da República é a instituição que, por excelência, deve ser ocupada por quem corresponda ao desempenho eficaz deste perfil: o perfil de um exercício tutelar, de saber, responsabilidade e ponderação, cuja pronúncia implica, no âmbito da hierarquia dos órgãos de soberania republicanos, ser ouvido nos diagnósticos e nas sugestões que funcionam como referenciais activos da vida social, política e institucional. Por princípio, os Presidentes da República, por inerência estatutária ou pelos resultados dos seus mandatos, são colectivamente considerados e respeitados. Porém, raros foram os que partiram para o exercício destas funções, com um capital de confiança cívica que ultrapassasse a dimensão político-partidária… e esta dimensão do problema é, hoje, particularmente incisiva no contexto de democracias fragilizadas por economias nacionais, marcadas por sérias dificuldades de adaptação aos requisitos de uma sociedade globalizada, onde as lógicas macro-económicas e financeiras condicionam de forma determinante os rumos e ritmos de desenvolvimento. Por isso, o perfil cultural que se justifica defender para a Presidência da República é, nos tempos que correm, assaz diverso do que tem sido habitual. O Presidente da República tem hoje que ser um Homem simultaneamente da Cultura e da Política, capaz de compatibilizar, sem contradições demagógicas, o realismo pragmático e a empatia afectiva para com um povo que aspira à modernidade mas, que permanece alienado a estruturas de inter-conhecimento redutoras do exercício da competência e da meritocracia, com prejuízo da emancipação que viabiliza a competitividade. Neste contexto, a candidatura de Manuel Alegre é indiscutivelmente justa e adequada, ao país a que aspiramos e que podemos vir a ser… porque Portugal é um país feito “a pulso”, da Fundação aos Descobrimentos quando se optou pela improvável independência e o desbravar do incerto, face à incapacidade endógena de responder eficientemente às necessidades das pessoas, nos limites de um território esmagado pelas pressões exteriores e a fragilidade económica... um país que soube alcançar a Índia e o Brasil e que, depois, se perdeu nos meandros da gestão de uma riqueza que não soube gerir… um país que, a tropeçar, entrou em democracia, saindo da ditadura e da guerra colonial, para se confrontar, sem fazer os lutos racionais que a mudança requeria, com um modelo de desenvolvimento europeu específico cujas exigências só poderemos cumprir se nos reencontrarmos como identidade colectiva. Manuel Alegre disse-o: “É Preciso Um País (…) É preciso voltar a ter uma raiz (…)” e precisou-o, renovando o sentido e o modo de se dizer a Pertença, o Orgulho, a Identidade e o Ser, verbalizando o sentimento colectivo de que somos vítimas e de que precisamos de nos resgatar e que é o da (…) Pátria onde foi traída não só a independência mas a vida”. E, se o Poeta o disse, o Homem o fez, traçando o caminho improvável da consciência e da alma, provando que ser Político é mais do que integrar um ou outro grupo partidário e, isso sim, ter o interesse nacional como prioridade de vida. Por isso, pelo passado, pelo presente e pelo futuro, todos sabemos que, se queremos escapar às armadilhas que são as ilusões da pequena história dos dias, apoiar Manuel Alegre e elegê-lo Presidente da República de Todos os Portugueses é, qualquer que seja a perspectiva, da esquerda à direita, um imperativo nacional. Sejamos sérios, sejamos justos! Manuel Alegre é o Presidente da República de que os Portugueses Precisam… para que a esperança e a confiança sejam devolvidas aos cidadãos e para que o país possa respirar livremente com a tranquilidade de alma que nos fará caminhar, com firmeza e convicção, no sentido de um futuro melhor!

 

Ana Paula Fitas

 

Ana Paula Fitas é autora dos blogs a Nossa Candeia e Forum Palestina e co-autora do a Regra do Jogo

um uivo de Luís Novaes Tito às 02:54

07 de Fevereiro de 2010

A candidatura presidencial de Manuel Alegre (MA) continua a suscitar controvérsia. Há os que o apoiam, os que o rejeitam, e agora, perante o facto consumado, surgem também os apoiantes "condicionais". O dr. Vital Moreira (VM) é um destes casos. Na sua crónica no PÚBLICO (26/01/2010) afirma que o PS não se pode "render sem condições" a Manuel Alegre, e que só mediante "um compromisso" tal candidatura pode obter "convictamente" o apoio dos socialistas. Na verdade o que VM pretende é que o PS "controle" MA, ou seja, se não se consegue impedi-lo, então que se lhe imponham condições.

 

Do alto da sua sapiência, enumera todo um rol de desvios "esquerdistas" e de "ingratidões" de MA ao seu partido. Alguém que nem é militante (ao que se sabe), no seu excesso de zelo, lança diversos anátemas a Alegre, um histórico do PS que ajudou a formatar a matriz social-democrata do partido.

 

O rol de atributos apontados a MA no citado texto é bem ilustrativo da reserva mental do deputado europeu. Acusações como a "separação política e ideológica" do PS e a "afinidade electiva com a esquerda radical" só podem vir de quem ignora a cultura pluralista do PS e não é capaz de admitir nenhum dos erros do anterior Governo de Sócrates. As aproximações de MA ao Bloco foram pontuais e justificadas. O "óbvio gaullismo"/tentações nacionalistas de MA e sua "hostilidade" à integração europeia não passam de afirmações gratuitas. MA afirmou repetidamente a sua crítica à tecnocracia e ao excessivo peso da economia financeira, a submissão à cartilha da OMC, mas também a defesa de uma Europa solidária, com instituições mais abertas aos cidadãos, uma democracia mais ampla e intensa, o que, perante a crise que hoje enfrentamos, se prova que foram críticas certeiras.

Se a aura de "esquerda" de Alegre brilhou mais na última legislatura, foi porque as políticas governativas do PS se pautaram por uma deriva de direita em diversos domínios, que MA teve a coragem de criticar. Foi justamente com essa postura de autonomia que consolidou o seu espaço de figura presidenciável. É verdade que o BE tenta aproveitar-se da situação na sua disputa com o PS. Compreende-se a necessidade disso. Mas a confusão é fictícia e deliberadamente fabricada, inclusive por alguma comunicação social.

 

Se, por acaso, MA aceitasse, respeitosa e disciplinadamente, as "directrizes" vindas do Largo do Rato, como pretende VM, seria não o MA que conhecemos, mas uma caricatura de si mesmo, que os portugueses rejeitariam. Alegre é quem é, e não pode vestir a pele de um socrático, para satisfazer o dr. VM ou outros que alinham no mesmo coro.

 

Como candidato vencedor que pretende ser, MA sabe com certeza que a sua candidatura tem de ser abrangente e terá de conquistar segmentos não só da esquerda, mas do centro e até da direita. Para tanto, só tem de mostrar o seu enquadramento na matriz ideológica do socialismo democrático, o seu apelo à cidadania activa e a sua consciência social dos problemas que assolam o país, a Europa e o mundo.

 

Publicado no jornal PÚBLICO de 07/02/2010 e em simultâneo no blogue Boa Sociedade


05 de Fevereiro de 2010

Alberto João Jardim voltou a chantagear o Governo com a exigência da alteração da lei das Finanças regionais para aumentar a transferência de verbas para a Madeira e a capacidade de endividamento da região. O Governo da República, num auto de dramatização política, bateu o pé e opôs-se.


O assunto não passaria de mais um episódio da já longa história de diatribes do Presidente do Governo Regional se não acontecesse em cenário de discussão do Orçamento do Estado e da chantagem da oposição para a sua aprovação. A lei acabou por ser aprovada hoje com os votos de todos os partidos da oposição. Isto depois da discussão e votação ontem de uma proposta, aprovada por unanimidade pela Assembleia Legislativa da madeira, que dos iniciais 800 milhões de euros exigidos se contenta agora com a transferência de 50 milhões. A verdadeira questão não é o montante das verbas para a Madeira. É antes uma questão de princípio, que deve recusar uma gestão despesista que contrasta com a do Governo dos Açores que, com nove ilhas e uma população superior à da Madeira, e tendo uma dotação do Estado que não chega ao dobro das verbas, tem conseguido desenvolver a região sem necessidade de maior endividamento.

 

A verdade é que ninguém fica bem neste retrato. O Governo fez birra e fincou-se num braço de ferro chegando mesmo a ameaçar com a demissão. O PSD, que faz deste caso moeda de troca para viabilizar o OE, revela falta de sentido de Estado e oportunismo político. Também não se compreende a posição do BE e do PCP que recorrentemente vociferam contra o despesismo e o regabofe financeiro da Madeira, mas agora se juntam para o caucionar.

 

Lamentável foi a posição dos deputados socialistas madeirenses que alegando o “interesse regional” contribuíram para a aprovação da proposta. Já era tempo do PS Madeira ter uma posição firme e corajosa na defesa do interesse nacional, que inclui o dos madeirenses, e assim deixasse de embarcar nesta subserviência aos dislates financeiros do Alberto João. É por estas e outras que ele continua a ter votações albanesas que o perpetuam no poder.
 

um uivo de Maria Ferraz às 19:23

03 de Fevereiro de 2010

Nicotina MagazineJoão Gomes de Almeida lançou ontem a Nicotina Magazine, revista on-line de cultura subversiva e pós-revolucionária onde mistura uma editora, um bar, um restaurante, gente interessante, notícia, esquerda, direita, marche.

 

Neste primeiro número inclui entrevistas, faz referências à blogos(fera), divulga caixas sobre literatura, cinema, artes, dança, teatro e inclui uma crónica minha entre outras da autoria de Maria Isabel Goulão, Maria Inês de Almeida, Tomás Vasques, Nuno Ramos de Almeida e Vasco Campilho. É o que se chama ficar bem acompanhado.

 

A Nicotina Magazine tem tudo para vir a ser um êxito de edição. Aqui deixo ao João os meus parabéns pelo arrojo da iniciativa, os meus votos de maior sucesso para todas as vertentes deste seu projecto e o agradecimento pelo convite que me endereçou para fazer parte deste número de arranque.

 

 

"A pouco mais de um ano da escolha do novo Presidente da República começa a ser tempo de se esboçar o perfil de quem queremos que venha a ser o garante do interesse dos cidadãos e do interesse nacional. Urge que se garanta que o próximo Presidente da República seja uma entidade em que o povo português se reveja ética e consistentemente, o que não implica neutralidade política mas recusa ao engajamento nas máquinas partidárias. Alguém que não envolva ou se deixe envolver na “partidarite” e no jogo de pequenas políticas e em que se confie um juízo pertinente capaz de reunir vontades e impor aos poderes não eleitos rumo sustentado na defesa da qualidade e da decência."

LNT

um uivo de Luís Novaes Tito às 03:24

31 de Janeiro de 2010

A propósito do apoio do BE à candidatura de Manuel Alegre, saiu nos últimos dias uma noticia do semanário SOL com declarações minhas em que se referia haver uma estratégia do Bloco e um "aproveitamento" em relação a esta candidatura que “não é positivo”, servindo os argumentos dos seus inimigos. Na mesma entrevista disse o mesmo em relação a qualquer atitude idêntica de outro partido. Mas isso não saiu no jornal.

Embora filiado no PS, tenho muitos amigos da área do bloco e estou seguro que ao longo da candidatura presidencial de MA iremos sem dúvida consolidar muitas das cumplicidades e posicionamentos políticos de grande proximidade que já partilhamos em muitas matérias.

Aquela referência a uma certa “colagem” do BE, que no actual momento me parece ser negativa do ponto de vista da candidatura, é, portanto, simétrica da opinião que tenho em relação a qualquer outra (hipotética) tentativa semelhante, inclusive por parte do PS, apesar de ser o partido do candidato e de muito do desfecho da candidatura de Alegre, estar ainda dependente da posição a tomar pelos socialistas.

Há cinco anos atrás a candidatura de Francisco Louçã à presidência também não foi completamente pacífica dentro do Bloco. E até alguma condescendência com a candidatura de Mário Soares, por contraposição com alguns “ataques” à então candidatura independente de Alegre, geraram alguma polémica. Seja como for, as coisas mudaram bastante ao longo da última legislatura.

Ao longo dos últimos 4 anos, MA esteve ao lado de Louçã em alguns momentos marcantes, pelo que a sua imagem foi projectada para uma aproximação ao Bloco. Continuo a pensar que essas situações foram plenamente justificadas, além do mais pelas medidas e políticas incorrectas adoptadas pelo governo PS (designadamente em áreas como a educação a saúde e o trabalho). A luta dos professores foi um exemplo marcante da incapacidade de diálogo do anterior governo, de um erro que até o novo governo já reconheceu, na prática, ao mudar a ministra e voltar atrás nas principais medidas nessa área.

Voltando ao Bloco. A questão é que, desta vez, quando já se criou uma ideia generalizada de que o BE apoia a candidatura de Alegre, as pessoas olham para MA e pensam no passado recente, na luta dos professores, na demissão do ex-ministro da saúde Correia de Campos, nas disputas parlamentares e negociações falhadas do Código do Trabalho, e em todas essas situações o (até agora único) candidato da esquerda esteve do lado dos críticos e em oposição ao governo do seu partido.

Do lado do PS, como também é sabido, tais orientações foram tomadas (nos procedimentos e nos objectivos) ao arrepio de promessas eleitorais e daquilo que é a tradição do socialismo democrático que suporta a matriz ideológica do partido. Portanto, não foi Manuel Alegre que se afastou da social-democracia, foi antes a direcção do PS que enveredou por opções neoliberais que a afastaram das suas referências históricas.

Essas posições, de certa forma, “colaram” a imagem de MA ao Bloco de Esquerda. Por essas razões, as pessoas (sobretudo as que se colocam à esquerda do PS, ou as que pertencem à ala esquerda desse partido) sabem bem que Alegre foi critico do anterior governo Sócrates. Mas, por outro lado, as que votaram PS e/ou são militantes “não alegristas” do PS olham com desconfiança para essas “aproximações” de MA ao BE (ex. Teatro da Trindade, Encontro das Esquerdas, etc). Acham que o Bloco está demasiado sintonizado com o candidato. E muitos esperam para ver a posição do PS em relação ao assunto e também as posições do candidato em relação a diversas matérias e problemas com que o país se confronta. Há ainda muitas dúvidas e zonas cinzentas sobre as presidenciais. Mas num ponto está tudo claro: qualquer outra hipotética candidatura na área da esquerda seria desastrosa, quer para o PS, quer para o futuro da esquerda.

Importa ter em consideração este enquadramento para se fazer uma leitura correcta do actual momento. Embora eu compreenda a necessidade do BE ter logo vindo a público, pela voz de Louçã, manifestar o seu apoio "oficial" a Alegre, antes mesmo de este ser candidato “oficial” (talvez para apaziguar resistências internas), acho que o gesto foi precipitado. A meu ver, faria mais sentido esperar algum tempo. Com isso, a imagem que passou para o Público foi a de uma estratégia bloquista obcecada em tirar vantagem ao PS. Independentemente das intenções, isso evidencia uma "colagem" à candidatura de Alegre. Uma colagem excessiva. Se não foi intencional, pareceu. E como se sabe o que parece também conta, e muito.

Perante isto, eu acho que, apesar de toda a manipulação – dos mass media – que está por detrás, e até por isso mesmo, objectivamente, tal situação ajuda a dar argumentos àqueles que, dentro do PS não desejam o apoio do partido a Alegre, e aos que dentro do PSD e da direita em geral alimentam diariamente essa ficção de que MA é o candidato da esquerda radical (ou seja, do BE).

Nestas condições, enquanto não existir uma posição oficial do PS no apoio a MA, cada vez que alguma figura do BE aparece na TV a dizer que apoia MA, mesmo que repita à exaustão que a candidatura é suprapartidária (como fez hoje João Semedo), está objectivamente a servir os argumentos daqueles sectores e a lançar essa imagem para a sociedade. Não se pode pensar que o apoio do partido “X” é «contra» o apoio do partido “Y”. Seria o mesmo que dizer “queremos a unidade da esquerda, mas desde que ela se baseie nos ‘puros’ princípios que defendemos”!!

É, pois, importante fazer – como MA fez hoje no Porto – um esforço de demarcação em relação a qualquer partido. Neste momento é a excessiva "colagem" do BE que atrapalha. O que, evidentemente, requer que a mesma preocupação esteja presente no caso de, amanhã, ser o PS a pretender apropriar-se da candidatura.

A questão é esta: a candidatura já tem o apoio do BE e ainda bem (de certo modo já a tinha, pelo menos informalmente). Mas precisa agora do apoio do PS. Goste-se ou não se goste de Sócrates e desta direcção do PS, a realidade é esta: sem esse apoio a candidatura de MA jamais terá hipóteses de sair vitoriosa; mas sem esse apoio, é Cavaco Silva e a direita que saem beneficiados.

Publicado em simultâneo no blogue: Boa Sociedade

 

um uivo de Elísio Estanque às 22:48

Num recente artigo de opinião no Público, Vital Moreira expressa as suas preocupações com o xadrez político das Presidenciais, designadamente a capacidade que os candidatos terão para atrair votos ao “centro.” Considerando que foi um dos principais responsáveis pela derrota do PS nas eleições Europeias, a análise de Vital merece alguns reparos.


Nas eleições Europeias Vital terá sido escolhido para cabeça de lista do PS porque  ― dizia-se ― era um homem de esquerda, e como tal conseguiria evitar a fuga de votos para a esquerda radical. Vital, ao contrário de outros potenciais candidatos, não seria identificado como um homem do “centrão”, como alguns daqueles tecnocratas que emergem dos aparelhos dos partidos, sem grandes convicções ou alma política.


O resultado das eleições Europeias mostrou, contudo, que Vital Moreira não conseguiu segurar votos à esquerda, não conseguiu captar votos ao centro, e tão-pouco conseguiu captar votos à direita. O PSD e o BE foram os grandes vencedores, e o PS saiu derrotado. De entre várias razões para a derrota, existe uma claramente identificável: Vital não é um homem de esquerda, não é de direita e tão-pouco é do centro-esquerda. Desde a sua saída do PCP, tem vindo a aproximar-se das posições do que se pode designar o “centrão”: Um grupo reduzido de dirigentes que apoiou sectária e invariavelmente o governo, mesmo quando o bom senso aconselharia a correcção dos caminhos que o governo vinha adoptando, do qual o melhor exemplo terá sido o conflito com os professores.


Com efeito, o “centrão” tem dois problemas: Em primeiro lugar nunca se sabe bem o que é, navega ao mero sabor das circunstâncias. Em segundo lugar, o “centrão”, ao contrário do centro-esquerda ou do centro-direita, não tem expressão eleitoral. Resume-se a um conjunto de dirigentes políticos, normalmente com origem nos aparelhos de alguns partidos, e que têm a sua expressão eleitoral em crescente declínio. O PS teve por isso o pior resultado alguma vez alcançado numas eleições Europeias. Resultado corrigido nas legislativas com mérito, por José Sócrates, com a ajuda de personalidades que o apoiaram na campanha eleitoral, capazes de gerar confiança em sectores transversais do eleitorado, da esquerda ao centro-direita, tais como Manuel Alegre, Mário Soares ou Jorge Sampaio. Mas também corrigidos nas autárquicas, das quais a maior expressão terá sido porventura a vitória de Costa-Roseta-Sá Fernandes em Lisboa, com o patrocínio de Manuel Alegre.


Destes resultados o PS deve tirar lições. Lições que se esperam vir a ter a sua tradução na escolha do melhor candidato para derrotar Cavaco Silva nas próximas eleições Presidenciais. Um candidato capaz de garantir o bom funcionamento das instituições e do sistema político, mudar Portugal numa estabilidade sustentada, com mais entusiasmo e coragem. Esse candidato é obviamente Manuel Alegre. Um candidato onde até Vital Moreira, apesar da sua análise algo enviesada, poderá vir a votar, seguramente, com confiança e entusiasmo.

 

Publicado no Jornal Público de 31/1/2010


29 de Janeiro de 2010

"Estamos constantemente a utilizar termos que têm uma intenção e uma extensão que não são inteiramente aptas. Teoricamente, são em princípio criados para serem aptos, mas, se não o conseguem, então terá de ser encontrada uma outra maneira qualquer de lidarmos com eles, de modo que possamos saber em qualquer momento aquilo que pretendemos significar.”

T.S.Eliot

 

Botero

De quando em quando criam-se rótulos e palavras para designar coisas e conceitos antigos retirando significado às simbologias adquiridas por todos. Neoliberal para capitalista selvagem é uma delas e auto-regulação do mercado para selvajaria capitalista, é outra. Com a mediatização dos agentes políticos, surgiu também a moda da dissimulação das doutrinas com recurso a técnicas agressivas de publicidade e do marketing, num jogo de manipulação, onde as roupagens novas tentam negar o antigo que tapam.

 

Usam-se termos incríveis de sentido vazio como “sociedade civil” para se designar sociedade dos cidadãos ou “pragmatismo” para justificar o primado da imoralidade política feita negócio. Enquanto se joga com as palavras e se reinventa a cabra-cega, movimentam-se os interesses na emergência de riquezas sem produção de valor, observam-se tomadas de posto em empresas privadas que sugam do Estado as contribuições entregues para o bem comum, permitem-se bloqueios de área pública com usufruto privado e concedem-se favores sob a capa de regulação ou de outros maneirismos para subterfúgio da impunidade.

 

Na coisa política elegem-se cada vez mais representantes com menor percentagem de votos, desinteressam-se cada vez mais as vítimas dos direitos e dos mecanismos de defesa, afastam-se os desprevenidos das palavras antigas e entregam-se os desprotegidos à falta de referências e à sedução da fantasia consumista, da irrealidade e da escravatura.

 

(Continue a ler na OPS!)

um uivo de Luís Novaes Tito às 01:51

27 de Janeiro de 2010

ConvidadosNa coluna da direita já está aberto o agregador dos textos de convidados que vão começar a enviar textos para este Blog.

 

São pessoas importantes, como todas as pessoas que escrevem ou ditam para que as leiam, e são gente de quem gostamos especialmente.

 

Os textos serão publicados pela ordem de chegada e como as gentes, pessoas, que convidamos a nos mandar carta, são gente de bem, gente que vem por bem, desculparão esta nossa descontracção e informalidade com que os recebemos.

 

Queremos acreditar que se sentirão aqui como se estivessem em sua casa, sem necessidades especiais para além daquelas de quem acredita que ainda vai ser viável voltar a acreditar e, desta vez, conseguir o impossível.

 

Bem-vindos e vamos a isto, que se faz tarde.


 

 

24 de Janeiro de 2010

Não se pode agradar a gregos e a troianos. Na vida há sempre quem goste e o seu contrário. Mas a inveja continua a ser o pior dos males da humanidade. No caso de Alegre, os que não gostam dele - e não me refiro aos adversários políticos de direita -, são muitas vezes as figuras de segunda linha, personagens sem voz e sem luz próprias que arremessam pedras para disfarçarem a má consciência da sua própria morte sem memória futura. Eu compreendo alguns desabafos, mas também sei que o azedume de alguns camaradas do meu partido (PS) é tudo, menos tolerante. Que cada um assuma as suas responsabilidades.

 

Não devem levar a mal que Manuel Alegre tenha escolhido fazer o seu destino, que tenha feito opções arriscadas, que tenha decidido pela sua cabeça. Fernando Pessoa dizia que a “vida é de quem a conquista e não de quem a sonha conquistar ainda que tenha razão”. O poeta da “Trova do vento que passa” cedo compreendeu que há um tempo para resistir e outro para agir. Quem escolhe fazer o seu destino, a “moira” de que falavam os gregos, será sempre um alvo fácil de crítica, principalmente, por aqueles que se sentem desconfortáveis na sua própria pele, por aqueles que não iluminam nem o seu próprio umbigo. O mundo está cheio daqueles que diziam que Obama não tinha hipótese de ganhar nada. Por cá, essa semente daninha tem alguns defensores oficiosos que argumentam no seu castelo as suas inverosimilhanças. Quem ousa agigantar-se contamina sempre as multidões. É este espírito que Portugal precisa. Os portugueses esperam que Manuel Alegre seja igual a si próprio, que traga emoção e esperança, que fale claro e que a sua voz tenha o timbre que envolve os corações de cada um. Estamos fartos de tecnocratas, de gente “qualificadíssima” que se esquece quase sempre de falar das pessoas, mas que lembra a todo o instante a frieza dos números, como se o mais importante fosse a economia e não a política. Os politólogos do momento encaixam no puzzle liberal onde desaguam os mentores da insensibilidade social. Por isso, Manuel Alegre é a metáfora de um rio que transborda para as margens as palavras que se afeiçoam aos afectos, onde aqueles que nada têm soletram no olhar do poeta a emoção que os liga. O povo gosta de gente que se emociona, que chora, que sofre com a dor dos outros, que é capaz de golpes de asa, que resiste aos caminhos mais curtos.

 

Quando eu decidi apoiar Manuel Alegre nas últimas eleições um coro de espanto e de admiração toldou aqueles que me eram próximos. Não estranhei as críticas nem as deslealdades. Achei normal a divergência. Agora será mais fácil para aqueles que estiveram contra juntarem-se a esta corrente imparável que se sente todos os dias, como se antecedesse a festa premonitória. A esses, que não estiveram com Alegre nas últimas eleições presidenciais, digo-lhes que chegou a hora de o fazerem. Ele representa um projecto de esperança, é capaz de unir a esquerda em torno do essencial, dos seus valores e dos seus princípios. Portugal tem uma história de séculos fundada numa matriz de cultura e de humanismo, de tolerância mas, também, de coragem. Ele personifica tudo isto, ele é o insubmisso que leva consigo a herança de um passado comum que falta cumprir-se.

 

Eu quero um Presidente que conheça a história de Portugal, que saiba interpretar a diáspora, que recupere o melhor do nosso cosmopolitismo; eu quero um Presidente que tenha orgulho na palavra Pátria, onde cabem todos os nossos heróis, os nossos poetas, os filhos daqueles que construíram o Mosteiro dos Jerónimos, os filhos daqueles que construíram as caravelas, os filhos daqueles que sem nome de família foram dando “novos mundos ao mundo”. Eu quero um Presidente que tenha “saudades do futuro”, que não vete os direitos daqueles que são diferentes, que exerçam a magistratura de influência para aumentar a auto-estima nacional. Eu quero um Presidente em que o verbo rime com uma lusofonia de acolhimento e não de exclusão. Eu quero um Presidente com espírito erasmo onde os mitos fundadores renasçam.


O regresso de Manuel Alegre activa as utopias que o imaginário nunca dissolve.

 

Por António Vilhena

Publicado originalmente no Diário de Coimbra

um uivo de Cães como tu às 16:30

Manuel Alegre ao Expresso:

 

“As pontes que possa ter estabelecido com outros sectores de esquerda não legitimam ninguém a dizer que sou um candidato do Bloco”. “A candidatura será nacional, com grande marca de independência e historicamente enraizada no PS”, afirmou Manuel Alegre ao Expresso.

 

Ver mais aqui.

um uivo de Cães como tu às 16:20

23 de Janeiro de 2010

Hope for Haiti now 

 

Hope for Haiti now - Live

 

 

um uivo de Luís Novaes Tito às 01:07

19 de Janeiro de 2010

Há quinze dias escrevi aqui que a pouco mais de um ano das próximas eleições presidenciais é já possível ter algumas certezas, embora permaneçam no ar outras tantas dúvidas.

 

Quanto às certezas, identifiquei quatro que me parecem relevantes: o actual presidente vai candidatar-se a um segundo mandato; não surgirão, à direita, outros candidatos fortes; haverá, concerteza, temas fortes à direita e o que vai estar em jogo, em 2011, é a definição de modelos concretos de sociedade e de Estado em muitos aspectos antagónicos.

 

Conforme prometi, então, apresento agora outras tantas dúvidas.

 

1. Vai a esquerda ter um único candidato (na 1ª volta)?

 

A resposta seria sim:

 

1.1 Se o PS não estivesse tão fulanizado por razões várias (históricas ou recentes), se não estivesse tão dependente do êxito do Governo (e, em particular, do Primeiro Ministro), se não estivesse tão comprometido com a defesa de interesses específicos do bloco central (que alguns comentaristas de alto gabarito preferem apelidar de "interesses transversais") e se não estivesse, mais uma vez, a gerir "a crise" do capitalismo pedindo novos sacrifícios aos que desde sempre são sacrificados;

 

Em última análise, a resposta à questão depende da posição que Sócrates ( e o seu "petit comité") vier a tomar e do tempo em que essa decisão seja tomada.

 

1.2 Se o PC considerasse mais importante derrotar o (re)candidato da direita logo à 1ª volta do que reafirmar "pela enésima vez" a sua força eleitoral, cada vez mais ameaçada pelos bloquistas e pelos trânsfugas que o abandonam directamente para os partidos de direita ou para a abstenção.

 

2. Vai a esquerda ter um candidato na 2º volta?

 

Se, na área do socratismo ou do soarismo aparecer um candidato para além do único que já se anunciou (Manuel Alegre), e se esse candidato tiver o apoio oficial (ou oficioso) do PS, é bem provável que o (re)candidato da direita ganhe à primeira, possívelmente ainda com mais votos do que os que obteve em 2005. Essa situação será ainda mais provável se o PC, como é habitual, aparecer com um candidato próprio que não desista à boca das urnas.

 

3. Vai o PS (e o Secretário-Geral) apoiar oficialmente a candidatura de Manuel Alegre?

 

Provavelmente sim, porque essa será a única forma de impedir a forte ruptura partidária à esquerda, que se adivinha que pudesse surgir na sequência da aprovação, com um ou com os dois partidos da direita, do Orçamento de Estado de 2010 e de um plano que garanta aprovações de diplomas importantes e do OE de 2011. O apoio a Manuel Alegre aparecerá, nesse contexto, como a tentativa de "prenda" à esquerda em geral, mas em particular à sua própria esquerda. Será a única forma de silenciar ou abafar a forte contestação social que irá surgir na sequência dessa aprovação. Será a única maneira de Sócrates impedir as críticas políticas vindas da base do partido

 

Se o actual presidente for reeleito em 2011, a direita deixa de considerar útil manter o PS no poder e a forma mais eficaz de ter uma maioria, um governo e um presidente, é chumbar o respectivo Orçamento.


18 de Janeiro de 2010

Alegra-te

(...)

"E acima de tudo um cidadão [(Manuel Teixeira Gomes)] que nos deixou uma lição de ética e de sentido estético da vida.

 

Neste ano em que se comemora o Centenário da República, voltamos a precisar desse rigor ético na vida privada e na vida pública.E também de algo que vá para além do discurso cíclico sobre as contas públicas.

 

As pessoas precisam de um horizonte e de uma perspectiva para além dos números e para além dos sacrifícios que lhes pedem no dia a dia. As pessoas precisam de saber porquê e para quê. E sobretudo, para além do direito ao trabalho e do direito ao pão, as pessoas precisam do direito à esperança, do direito ao sonho e do direito à beleza."

Manuel Alegre - Portimão, 2009.01.15

(sublinhados e parêntesis meus)

 

A bucha (há mais vida para além do Orçamento) que Manuel Alegre introduziu no seu discurso tem feito correr muita tinta, principalmente dos que insistem em transformá-la na essência do discurso, isolá-la do contexto em que foi usada e até, acrescentando à bucha a palavra “deficitário”, explicar que sem orçamento não haverá vida.

 

No entanto esquecem que o Presidente da República não tem poderes executivos. Que não lhe compete governar mas sim exigir rigor ético na vida pública e de fazer valer que “para além dos números e dos sacrifícios” exista um “horizonte e uma perspectiva” que conceda aos cidadãos “esperança e direito ao sonho e à beleza”. No entanto esquecem os preceitos constitucionais, que ao Presidente competem fazer cumprir, nomeadamente os consignados no art.º 9º, onde se explica que vida é essa que existe para além do Orçamento.

 

É por haver vida para além do Orçamento que a candidatura de Manuel Alegre incomoda muita gente. Gente que não consegue entender que as candidaturas à Presidência da República têm de ser supra-partidárias para que exista equidistância no exigir do rigor ético e do sentido estético da vida, das despesas, do esbanjamento, da corrupção e da justiça.

um uivo de Luís Novaes Tito às 13:44

Alegra-te


16 de Janeiro de 2010

Presidentes das câmaras municipais de Portimão, Aljezur, Vila do Bispo, e São Brás de Alportel, todos do PS, estiveram no jantar de apoio a Alegre em Portimão. Ver mais aqui.

um uivo de Nuno David às 08:01

"Estou disponível para esse combate" disse Manuel Alegre esta noite em Portimão. Depois de recordar Teixeira Gomes, Presidente e poeta natural de Portimão, Manuel Alegre afirmou que "Portugal vale a pena" e que é preciso "acreditar e agir".

 

Discurso de Manuel Alegre em Portimão aqui.

um uivo de Cães como tu às 03:09

14 de Janeiro de 2010

Como se sabe, as eleições presidenciais de 2006 provocaram o divórcio entre Mário Soares e Manuel Alegre, depois de uma longa história de amizade e companheirismo no seio do PS. Porventura, foi mais do que um divórcio (porque alguns são amigáveis), talvez um litígio insolúvel, que é o que muitas vezes acontece quando as lealdades fortes se quebram, dando lugar a rivalidades irreconciliáveis, com sabor a traição... Desconheço se existem outros motivos de ordem pessoal, mas não duvido – nem eu nem o país inteiro – que foi, primeiro, a ousadia de Alegre e, segundo, o resultado por ele obtido que Mário Soares nunca conseguiu digerir.

 

Há pouco tempo numa entrevista ao jornal “i”, palavras de Soares (depois comentadas por Alegre) pareciam indiciar a possibilidade de uma reaproximação entre ambos. Reproduzo o que disse a esse propósito num post de 9/12/2009: «É altura do PS e de Mário Soares compreenderem o erro que cometeram. A acontecer, isso seria um passo importante para que, como grandes personagens que são, possam estar à altura de saber reconciliar-se. As palavras de cada um na última semana deixam, pelo menos, antever essa possibilidade. E isso, quanto a mim, seria bom. Tanto para o PS como para a democracia deste país».

Pois. Seria bom que assim fosse. Porém, um mês depois, e não obstante a notória ausência de um candidato presidencial credível na área do PS a não ser Manuel Alegre – de resto uma candidatura que, como todos os observadores sublinham, já está no terreno e a suscitar uma impressionante onda de apoios espontâneos –, parece claro que as hostes Soaristas pretendem, uma vez mais, baralhar tudo e todos. Persistem em fabricar um candidato contra Alegre.

Soares, que não se cansa de intervir publicamente – e ainda bem – em defesa de causas da “esquerda”, que mantém Cavaco Silva como um rival político privilegiado, que defende um PS, alianças e políticas mais à esquerda, vem promover e insistir num nome do PS – Jaime Gama – que nem mesmo os segmentos mais de direita parecem acreditar como candidato vencedor.

 “Jaime Gama, sendo fundador do PS tem uma base de apoio no PS que entra na direita também e ...passando à segunda volta, toda a esquerda votaria nele...” – declarou Vitor Ramalho. Diz ainda este incondicional “soarista de serviço” que Manuel Alegre até pode candidatar-se, mas isso não é sinónimo de ganhar eleições. Coisa que, segundo ele, já não se aplicaria ao candidato Jaime Gama...

Por um lado, estas afirmações podem até ser úteis para ajudar a distinguir o trigo do joio. Depois do estrondoso resultado de MA em 2006 (atendendo às condições e a todas as dificuldades que lhe foram criadas), sendo o PS aquilo que é, não foi possível ao partido fazer o que seria natural, que era promover um debate interno que ajudasse a perceber o que tinha acontecido. Que permitisse retirar as necessárias lições do clamoroso erro cometido com o apoio “oficial” a um candidato anacrónico (e claramente perdedor), como foi Mário Soares. Sabendo que as facções permanecem, isto irá contribuir para que os poderes obscuros que manobram no PS possam ser isolados pela vontade dos militantes. Se o forem, mesmo que conjunturalmente, o PS pode ficar melhor e o país ganhará com isso.

Por outro lado, é lamentável que, cinco anos depois, as mesmas forças que impuseram Soares como candidato continuem a persistir no mesmo disparate. O nome de Jaime Gama não é, de modo nenhum, ganhador, e menos ainda contra Cavaco Silva. E se a direcção do PS tem dúvidas haverá métodos democráticos para saber o que pensam os militantes. Portanto, a questão parece ser tão só que Mário Soares e mais alguns nomes encostados à direita ideológica do partido, em desespero de causa – porque não suportam uma candidatura virada para promover a “cidadania plena”, de militantes e não-militantes – querem a todo o custo travar a candidatura de Manuel Alegre e impedir o PS de vir a apoiá-lo. Não vão consegui-lo. O que vão é ficar ainda mais descredibilizados. A democracia em acção está já a desenhar-se, segundo uma dinâmica de movimento, de baixo para cima. E é desse modo que a experiência participativa pode culminar em experiência colectiva emancipatória. E com tudo isto Mário Soares talvez perca a última oportunidade de ter uma retirada feliz da vida pública – uma retirada à altura do seu papel na construção democrática do país.

Publicado simultaneamente no Boa Sociedade


Quase quase nos 2000, até onde poderá ir?

 

Pois é, a página no facebook com o título “Manuel Alegre para Presidente da República em 2011” está mesmo mesmo mesmo para chegar aos 2000 apoiantes... Num tempo autenticamente record...

 

Talvez sintomático da vontade, e da motivação, de tantos!

 

Até onde poderá ir este número?


11 de Janeiro de 2010

Manuel Alegre

"Portugal tem futuro mas o país está doente. E isto não pode ser enfrentado com uma visão tecnocrática, é preciso visão política, cultural e histórica. Essa é a função do PR."

Manuel Alegre – Expresso – 2010.01.09

 

Esta é uma das frases-chave da entrevista que Manuel Alegre deu ao Expresso desta semana.

 

Não entender que ao Presidente da República compete ser o intérprete dos portugueses através da sua identificação com os problemas dos cidadãos e com o cumprimento das regras da democracia expressas na Constituição, o que faz com que os portugueses sintam em Belém um último recurso para a sua defesa, é não entender o papel fundamental que um Presidente da República tem de desempenhar para que exista confiança no regime.

 

O Presidente da República tem de ser o zelador pela aplicação de igual justiça, o garante da protecção dos cidadãos mesmo em relação a eventuais abusos de outros poderes. Não lhe compete definir a política mas sim assegurar o cumprimento da Constituição. Não lhe compete governar, nem apresentar linhas de orientação política porque isso é da competência de outros órgãos democraticamente eleitos.

 

Como diz Alegre na entrevista, ao Presidente não se tem de exigir "visão tecnocrática" porque o que se lhe exige é uma "visão política, cultural e histórica" que assegure a unidade nacional, o cumprimento da Constituição e a garantia da justiça e da segurança, usando todos os meios que a Lei Fundamental lhe concede.

 

Se Cavaco entendesse isto não se tinha deixado arrastar para a contenda política que desacreditou o seu papel supra-partidário. Um Presidente da República não é um corta-fitas assim como não pode ser contrapoder. Tem funções bem definidas e é com o seu desempenho que garante que Portugal é uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular e empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária.

 

(também publicado no a Barbearia do Senhor Luís)


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