Desde 2005 que me desloco habitualmente para o trabalho de bicicleta. A convite de uma tertúlia realizei recentemente uma intervenção sobre o tema “Lisboa sem barreiras”. Que barreiras derrubar para uma Lisboa mais humanizada? Até há pouco mais de dois anos verificava-se a inexistência de uma política urbana promotora da mobilidade cicloviária em Lisboa. Os transportes públicos não são a única alternativa ao automóvel. Acabar com o caos do trânsito na cidade implica uma política de diversificação da oferta dos modos de locomoção das pessoas. O incentivo ao uso da bicicleta faz parte de uma nova abordagem de mobilidade, cujos estudos da União Europeia secundam e incentivam.
O objectivo que neles se considera realista, a médio prazo, é atingir 14% a 17% de deslocações de bicicleta nos grandes centros urbanos. A bicicleta promove contextos benéficos de maior mobilidade, menor poluição, incentivo ao comércio, melhor utilização de espaço, entre outros. Contudo, este é mais um domínio em que Portugal está também na cauda de Europa, sendo um dos países com menos kms percorridos em bicicleta por habitante e por ano. Sabe-se hoje que 30% dos trajectos efectuados em automóvel correspondem a distâncias inferiores a 3 km. No domínio da qualidade do ar, o nível de poluição no habitáculo de um automóvel é normalmente superior à taxa de poluição do ar ambiente (um automobilista respira duas vezes mais CO2 e cerca de 50% a mais de oxido de azoto do que um ciclista).
De um modo geral, a objecção ao uso da bicicleta em Portugal baseia-se na crença de que é apenas nos países planos que deve e pode ser utilizada. Nada mais errado, e os exemplos contrários verificam-se em várias cidades. A Suíça não é um país plano: a bicicleta é, todavia, utilizada em 23% de todas as deslocações em Basileia, construída em ambas as margens de um cotovelo do Reno, e em 15% das deslocações em Berna onde numerosas ruas apresentam um declive de 7%. Exemplos destes abundam por muitas cidades da Europa.
A recente visibilidade dada à bicicleta na campanha eleitoral para a CML é um sinal dos tempos, para a qual muitos têm contribuído, incluindo a associação Massa Crítica e os que a pouco e pouco têm procurado contribuir para a beleza da cidade com velocípedes de duas rodas. E neles incluem-se alguns líderes políticos que andam de bicicleta, como Helena Roseta. Pensar as cidades de hoje exige entender os mecanismos que potenciam o espaço público como espaço de mobilidade e convivência, de partilha, de encontros e desencontros carregados de vivências humanizadas. E de felicidade. De acordo com o EuroBarómetro do “Urban Audit" da comissão europeia, Lisboa era até há pouco tempo a cidade da Europa com um dos maiores índices de insatisfação dos seus residentes. Lisboa, como todas as cidades, precisa de ser permanentemente reinventada, com as suas barreiras a serem identificadas e derrubadas. Como seria uma Lisboa sem barreiras? É algo por descobrir. Mas esse é um dos motivos que faz do programa do acordo de listas conjuntas PS-Unir Lisboa, com António Costa, um conjunto de ideias extremamente importantes para a mobilidade na cidade. Um programa que aposta na diversidade de modos de mobilidade, onde cada um possa fazer uma verdadeira escolha na sua maneira de se deslocar: de carro, em veículos de duas rodas, de transporte público, de bicicleta ou a pé. Quero ser feliz numa cidade que quero também mais feliz. E, de preferência, que o possa ser também a pedalar.
Artigo originalmente Publicado no PÚBLICO de 9/10/2009
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