Como se sabe, as eleições presidenciais de 2006 provocaram o divórcio entre Mário Soares e Manuel Alegre, depois de uma longa história de amizade e companheirismo no seio do PS. Porventura, foi mais do que um divórcio (porque alguns são amigáveis), talvez um litígio insolúvel, que é o que muitas vezes acontece quando as lealdades fortes se quebram, dando lugar a rivalidades irreconciliáveis, com sabor a traição... Desconheço se existem outros motivos de ordem pessoal, mas não duvido – nem eu nem o país inteiro – que foi, primeiro, a ousadia de Alegre e, segundo, o resultado por ele obtido que Mário Soares nunca conseguiu digerir.
Há pouco tempo numa entrevista ao jornal “i”, palavras de Soares (depois comentadas por Alegre) pareciam indiciar a possibilidade de uma reaproximação entre ambos. Reproduzo o que disse a esse propósito num post de 9/12/2009: «É altura do PS e de Mário Soares compreenderem o erro que cometeram. A acontecer, isso seria um passo importante para que, como grandes personagens que são, possam estar à altura de saber reconciliar-se. As palavras de cada um na última semana deixam, pelo menos, antever essa possibilidade. E isso, quanto a mim, seria bom. Tanto para o PS como para a democracia deste país».
Pois. Seria bom que assim fosse. Porém, um mês depois, e não obstante a notória ausência de um candidato presidencial credível na área do PS a não ser Manuel Alegre – de resto uma candidatura que, como todos os observadores sublinham, já está no terreno e a suscitar uma impressionante onda de apoios espontâneos –, parece claro que as hostes Soaristas pretendem, uma vez mais, baralhar tudo e todos. Persistem em fabricar um candidato contra Alegre.
Soares, que não se cansa de intervir publicamente – e ainda bem – em defesa de causas da “esquerda”, que mantém Cavaco Silva como um rival político privilegiado, que defende um PS, alianças e políticas mais à esquerda, vem promover e insistir num nome do PS – Jaime Gama – que nem mesmo os segmentos mais de direita parecem acreditar como candidato vencedor.
“Jaime Gama, sendo fundador do PS tem uma base de apoio no PS que entra na direita também e ...passando à segunda volta, toda a esquerda votaria nele...” – declarou Vitor Ramalho. Diz ainda este incondicional “soarista de serviço” que Manuel Alegre até pode candidatar-se, mas isso não é sinónimo de ganhar eleições. Coisa que, segundo ele, já não se aplicaria ao candidato Jaime Gama...
Por um lado, estas afirmações podem até ser úteis para ajudar a distinguir o trigo do joio. Depois do estrondoso resultado de MA em 2006 (atendendo às condições e a todas as dificuldades que lhe foram criadas), sendo o PS aquilo que é, não foi possível ao partido fazer o que seria natural, que era promover um debate interno que ajudasse a perceber o que tinha acontecido. Que permitisse retirar as necessárias lições do clamoroso erro cometido com o apoio “oficial” a um candidato anacrónico (e claramente perdedor), como foi Mário Soares. Sabendo que as facções permanecem, isto irá contribuir para que os poderes obscuros que manobram no PS possam ser isolados pela vontade dos militantes. Se o forem, mesmo que conjunturalmente, o PS pode ficar melhor e o país ganhará com isso.
Por outro lado, é lamentável que, cinco anos depois, as mesmas forças que impuseram Soares como candidato continuem a persistir no mesmo disparate. O nome de Jaime Gama não é, de modo nenhum, ganhador, e menos ainda contra Cavaco Silva. E se a direcção do PS tem dúvidas haverá métodos democráticos para saber o que pensam os militantes. Portanto, a questão parece ser tão só que Mário Soares e mais alguns nomes encostados à direita ideológica do partido, em desespero de causa – porque não suportam uma candidatura virada para promover a “cidadania plena”, de militantes e não-militantes – querem a todo o custo travar a candidatura de Manuel Alegre e impedir o PS de vir a apoiá-lo. Não vão consegui-lo. O que vão é ficar ainda mais descredibilizados. A democracia em acção está já a desenhar-se, segundo uma dinâmica de movimento, de baixo para cima. E é desse modo que a experiência participativa pode culminar em experiência colectiva emancipatória. E com tudo isto Mário Soares talvez perca a última oportunidade de ter uma retirada feliz da vida pública – uma retirada à altura do seu papel na construção democrática do país.
Publicado simultaneamente no Boa Sociedade










